17/12/2009

Amanhã III: O 'eu não vou ser capaz" segundo Irene Lisboa



Gosto de escritoras portuguesas; são muitas e boas. De Irene Lisboa admiro a sensibilidade e o talento para fazer literatura com as pequenas coisas. Apesar de ter nascido em 1892, e acho que sem aspirar a sê-lo, foi uma mulher 'moderna', entregue à sua própria vida.

Nestes dias que ando a reflectir sobre o que nos impede de escrever, lembrei-me dumas palavras de Irene Lisboa em Solidão que poderiam ser subscritas por muitos de nós a propôsito de qualquer âmbito da vida. São essas frases um pouco vazias de conteúdo real que querem descrever uma pretendida incapacidade e que nos servem na realidade para não ter que tentar sequer fazer aquilo que gostariamos, para anular a nossa vontade de criar seja o que for. Felizmente, a escritora não as levou à letra e chegou a contradizer as suas declarações iniciais.

Eis aqui as 'escusas' de Irene:

Verdadeiras novelas é que não posso nem sei fazer. Julgo que para se arquitectarem entrechos romanescos com certa lógica e um sentido contínuo de vida, nos devemos sentir espectadores, desinteressados espectadores do mundo dos outros, e até das nossas próprias ficções! Eu não sou assim tão isenta e desapaixonada. E não tenho fôlego... Sempre me pareceu admirável, mas estranho a mim própria, às minhas inclinações, o poder de análise do bom novelista, a sua análise serena e lúcida.  (de Solidão, ed. Presença, Lisboa, 1992, p. 23).

16/12/2009

Amanhã II: O bloqueio segundo Eugénio de Andrade


Por enquanto sigo na mesma: vencer bloqueios e procrastinações. E digo isto aqui, publicamente, para ter um compromisso real para dominá-los. Se não conseguir, reclamem por favor.

Para superar tamanho desafio, entre outras coisas, leio vozes amigas, companheiras da mesma fadiga. Poucos autores tem mostrado tão bem como Eugénio de Andrade o medo, a tensão, a luta diante da folha (leiase o ecrã) em branco:

Essa folha aí. Tão branca que nem a neve é assim fria. Aproximo os dedos numa espécie de carícia, tentando atenuar, diluir tanta hostilidade, mas logo recuam tocados pelo medo. É tão difícil. Porque essa brancura queima, arde silenciosa num fogo que ninguém vê. [...] De súbito, os dedos distendem-se, saltam; no seu movimento de falcão já não acariciam, antes rasgam, dilaceram, prosseguem sem largar a presa uma luta onde não há tréguas, vão deixando na neve sinais da sua presença, ora triunfante ora aflita, por vezes quase morta.

É mesmo assim.

15/12/2009

Amanhã I: De procrastinações e bloqueios


Leio que a incapacidade para escrever significa que o eu inconsciente veta o programa estabelecido pelo ego consciente, ou seja, uma parte do escritor, que quer escrever, há de lutar continuamente contra a outra parte, que não o permite (Nelson, Victoria, On Writer's Block). Terrível, não é? Acho que a procrastinação --esse transferimento da realização dalguma coisa para o futuro-- deve ser a miséria de boa parte dos bloggers que não conseguem actualizar o seu blog com uma frequência razoável. Eu própria neste último mês: quero, quero.... mas faço amanhã. Os bloggers perpetuamente bloqueados. Interessante, e perigosa, cercania entre block (bloqueio) e blog.

Escrever é um acto que ajuda a organizar o raciocínio, permite lançar luz sobre aquilo que é escuro... e é também uma actividade lúdica, criativa, libertadora. ¿Por quê nos negar então um momento de claridade ou de prazer? Nelson pensa que esse problema esconde o medo de amadurecer e de chegar a ser eficaz. Concordo plenamente com essa opinião: é uma espécie de sofisticada forma de autoboicote.

Adiar permite não ter que se enfrentar a possibilidade de fracassar ou de não cumprir as nossas expectativas.

Aprazar impede-nos desfrutar das nossas possibilidades e potencialidades actuais.

Pospor significa deixar para um hipotético futuro (que se calhar nunca vai chegar) a oportunidade de gozar hoje e aqui.

Procrastinação é palavra mesquinha.