15/11/09

Clarice na memória

Eu tinha dezassete ou dezoito anos. Não me lembro da maneira como Clarice Lispector chegou à minha vida, mas o que não posso esquecer é a forte impressião que me produz a leitura do seu livro Perto do coração selvagem. Acho que poucas leituras marcaram tanto a minha juventude.

03/11/09

De Mar a Mar - Romance e História




O dia 23 de novembro vão ter lugar no Ateneu Barcelonès de Barcelona as jornadas “Novela e historia” [Romance e história].
Este encontro é uma iniciativa do Instituto Camões e do Instituto Cervantes e vai contar com a participação dos autores: María Pilar Queralt del Hierro, Miguel Real, Maria de Fátima Marinho, Miguel Sousa Tavares, Ignacio Martínez de Pisón y Fernando Martínez Laínez. Os moderadores das mesas-redondas vão ser Sergi Dória e Jordi Gracia.


Toda a informação em:  http://demaramar09.blogspot.com/

26/10/09

Traduzir

Hoje encontrei uma boa definição daquilo que é traduzir. No livro de conversas Les yeux ouverts, Marguerite Yourcenar diz que o tradutor parece-se com alguém que está a fazer a mala. A mala está aberta à sua frente: pega num objecto e põe-no na mala, depois julga que talvez outra coisa seria melhor, então retira o objecto, mas pensa um pouco e volta a colocá-lo porque acha que é imprescindível. Fantástica imagem do tradutor à procura da palavra exacta.

21/10/09

Orgia literária

Descobri um bom site de literatura (com artigos, entrevistas, etc.): http//orgialiteraria.com. Nada a ver com a superficialidade com que se trata às vezes a cultura na net.

06/10/09

Morreu Mario Merlino




Ao voltar das férias tomei conhecimento, com grande sobressalto, da morte dum dos mais importantes tradutores de português: Mario Merlino. Ainda que não o conhecesse pessoalmente, sentia uma grande simpatia por ele. Tradutor de Lobo Antunes, Eça de Queirós, Clarice Lispector, Jorge Amado, etc, o seu trabalho com as palavras e a sua labor em pró do reconhecimento do tradutor não podiam ser alheias a ninguém minimamente comprometido nesta profissão. Além dessa afinidade, compartilhei com o Mario a vivência simultânea de traduzir tres livros de Alice Vieira: ele para o espanhol e eu para o catalão.  Saber que os dois estávamos a enfrentar o repto de re-criar os mesmos textos literalmente intraduzíveis irmanou-me com ele. Foram dias em que andamos à procura de rimas e jogos de palavras nas nossas línguas respectivas. Foram dias divertidos. Tinha só sessenta e um anos; a sua morte foi duplamente injusta.

28/09/09

Ser português

Com ocasião das eleições legislativas portuguesas, o jornal barcelonês La Vanguardia tem dedicado o seu suplemento Culturas (quartas-feiras) ao "mistério português". Num interessante artigo, Gabriel Magalhães reflecte sobre a identidade portuguesa e sobre o passado e o futuro de Portugal.

Confesso que numa primeira leitura achei o texto um pouco redutivo, mas depois pensei que talvez essas reduções são inevitavéis. As dimensões duma crónica jornalística obrigam a reduzir os argumentos ao essencial; existe a necessidade, também, de falar daquilo estrictamente particular para passar depois ao mais geral e, finalmente, julgo que o olhar dum indivíduo é sempre redutivo. 

Como estrangeira, concordo com quase todas as afirmações que Magalhães faz no seu artigo: vejo desde a distância o ser português, em geral, da mesma maneira. Não concordo, no entanto, com a sua opinião sobre a falta de orgulho nacional. Sempre pensei que o português, apesar de estar voltado para a Inglaterra e a França, sentia-se orgulhoso do seu país. Ao menos é assim como muitos portugueses se definem. E é assim como se manifesta algum dos comentaristas espontâneos da versão online do artigo.

Também não comungo com a ideia da "mentalidade aristocrática do indigente português", fruto da sua possível timidez. Já tive uma experiência de voluntariado em Portugal e conheci a pobreza do país, da mais 'digna' à mais extrema. Para mim, os indigentes são iguais em qualquer lugar do mundo: todos tristes, todos vencidos. Pode ser de outra maneira?




21/09/09

Português para estrangeiros

Alguma coisa mudou no imaginário dos portugueses. Hoje, em dois trajectos muito curtos, ouvi três portugueses a falar: um homem e um menino, no metro, e uma rapariga a falar aos berros pelo telemóvel. As três pessoas não eram turistas. Parecia que estavam a morar aqui. É isso o que mudou.

Dantes, português só se ouvia cá nas aulas, nalgum filme em VO de Manoel de Oliveira o nas vozes de Dulce Pontes e Madredeus (os catalães éramos monotemáticos no que diz respeito à música lusa). Não havia portugueses em Barcelona. Só o Manuel de Seabra, as leitoras do Instituto Camões e algum turista.

Foram os Erasmus? Contribuiram eles a mudar a mentalidade? A menina berrante podia ser Erasmus, sim. Mas como foi que os portugueses alargaram os seus trajectos transeuropeus mais além da Inglaterra, a França e a Suíça? Fiquei surpresa também com os gritos da rapariga. Contagiou-se nas aulas da veemência de italianas e espanholas? Onde foi a tradicional circunspecção portuguesa? Aceito sugestões.